Por Vinícius Alvares!
Há uma infinidade de definições que podem ser utilizadas para caracterizar a música feita em tempos tão delicados. “Interessante” não é das mais recorrentes. Qualquer tentativa de sinalizar intenções levemente diferentes são bem vindas. Mas ler um release anunciando uma mistura de country com dubstep é capaz de fazer o mais PRAFRENTEX correr, de constranger até Dr. Jairo Bauer. Vamos aos fatos: Daughn Gibson era baterista de uma banda de stoner, o Pearls and Brass. Segundo: O cara era um CAMINHONEIRO. Porra, isso sim é interessante.
Depois de uma provável treta sobre “diferenças criativas” (sempre um belo eufemismo), Gibson traz sobre as costas “All Hell”, sua primeira tentativa solo. Entre baterista e crooner, alguns loops, synths e a escuridão.
Digno de um barítono que remete a mestres como Johnny Cash, Nick Cave, Scott Walker e Stephin Merritt, Daughn deve conhecer a noite de cabo a rabo; uma relação estranha, simbiótica. Uma companhia agradável, como na melodia de “In The Beginning”. Ou uma luta para não ser engolido, como em “Lookin’ Back On 99”. Isso aqui é Cash numa bad trip. De algo bem tóxico, tipo chá de Basf K7 Chrome. “Bad Guys” é praticamente um filme do Lynch protagonizado pelo Peter Steele, que dirige pela madrugada delirando em arrebite.
Pesado. Mas o disco também tem seus respiros. “Dandelions” é uma parada no Clube Irmão Caminhoneiro Shell. De levada Western, finalmente dá pra saber como é ser o Sundance Kid atrás de um sintetizador.
É aí que chega a paulada. É uma cilada, Bino. “All Hell”. No prólogo, um guri morimbundo suplica pela avó. Ela sim, sabe rezar. Seus pais não manjam nada de Jesus. Corte para batida marcada, violoncello dramático: “It’s a long way down”, avisa Gibson. Por favor, alguém traga a avó dessa criança.
E assim se faz uma bela surpresa. Sem hype algum, do meio do nada, surge um dos discos do ano. Dentro um subgênero que garante um bacharelado hipster a qualquer um que se dispor a ouvir: Country-Dubstep Trucker. Só me resta aguardar com ansiedade pelo próximo disco da Sula Miranda.

