Jairo Jr. Meu Filho e o Eternauta

fev 22

Vão dizer que já estou me repetindo, falando de ETs outra vez, mas vá lá: Luciana e Grazi pediram novo texto e não pude falar de outra coisa. É que chegou aqui em casa, com atraso de quase um mês (aquele abraço pra Livraria Cultura, enrolando entregas desde 1947!), meu exemplar de O Eternauta, HQ com roteiro de Héctor Oesterheld e desenhos de Francisco Solano López. Clássico dos quadrinhos argentinos, reverenciado há 50 anos por lá, quase desconhecido por aqui. A editora Martins Fontes, sob o selo Martins, corrigiu este erro histórico lançando a primeira e mais conhecida leva dessas histórias de ficção científica.

O Eternauta começa quando um sujeito se materializa à frente de um quadrinista, alter ego de Oesterheld, e começa a contar sobre sua condição de viajante do tempo. Pronto: é a deixa elementar para toda esta trama de neve radioativa, gente morta nas ruas e caminhada non-stop pela sobrevivência. Juan Salvo, o narrador apelidado de Eternauta, relembra seu núcleo de amigos que tenta resistir à invasão de monstrengos meio insetos, meio robôs, meio qualquer coisa.

Tá, mas e daí? Daí que reza a lenda, contada pelo jornalista Paulo Ramos em seu livro Bienvenido – Um passeio pelos quadrinhos argentinos, que Solano propôs a criação de uma saga sci-fi ao roteirista, não sem antes avisar: “Não me escreva uma daquelas com pistolas de raios, me faça uma ficção científica realista”. Oesterheld aceitou a premissa e criou uma narrativa que é, antes de tudo, um tratado de afetividade em meio à devastação. Este sujeito que viaja pelo tempo não viaja à toa. Procura saber de sua mulher e filha, capturadas a mando de um líder-ET de 14 dedos. Para isso, tem que sobreviver sem condições de medir o quanto de solidariedade sobrou nos humanos ainda vivos.

O monstro das mãos enormes é inverossímil, claro, mas a busca do Eternauta é real o suficiente para tocar o leitor. Nela reside o segredo e o simbolismo da história. O mestre Oesterheld sabia, como todo autor de quadrinhos de aventura sabe, que é neste resto de racionalidade em meio à fantasia que nascem as grandes histórias do gênero. O preto e branco da arte de Solano, de expressões faciais de terror sob os uniformes, cuida de sublinhar este realismo.

Mesmo a ambientação da história, em uma Buenos Aires deserta, caminha nesta direção. Para o fanático por futebol que sou, por exemplo, é impagável a sequência em que um grupo militarizado improvisa um bunker humano em pleno estádio do River Plate. A partir daí, quando descobre-se que o inimigo é outro que não os próprios homens, a trama se desenrola como clara exaltação ao herói coletivo. Tudo sem apelar para o cabecismo bobo, nem a lentidão de roteiros pretensiosos. Talvez pela própria exigência do formato, originalmente publicado em capítulos semanais, a ação em O Eternauta não tem pausa para respirar em nenhum momento dessas 360 páginas.

Uma sequência foi preparada pela dupla, já nos anos 70, mas o teor político da continuação custou caro a Héctor Oesterheld. Simpatizante da Juventude Peronista, de oposição, foi morto pelo regime militar argentino, que também levou suas quatro filhas. O roteiro criado por ele, porém, transpôs o tempo e até a linguagem dos quadrinhos. Pode-se dizer, sem medo do exagero, que Eternauta alcançou o imaginário daquele país, não muito longe da Mafalda de Quino, dos livros de Borges, Cortázar ou do que quer que seja.

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Pocket Arte – Minha coleção de postais!

fev 16

Sabe quando você vai a uma exposição, galeria ou museu e depois de todo o encantamento e envolvimento com a arte fica triste por não poder  ter certas belezas em sua casa, para admirar quando quiser?

Pois é.. Infelizmente ninguém aqui (ainda) tem grana para ser um colecionador de obras de arte. Nas minhas andanças pelo mundo, arrumei um jeitinho de levar comigo para casa obras, exposições e artistas que passaram pela minha vida e, de quebra, ter também uma lembrança diferente dos lugares pelos quais passei. E foi em minha primeira viagem internacional que comecei a minha tão amada coleção de cartões postais de arte que dividirei aqui com vocês. São tantos cartões, tantos queridos que completarei este post com dois outros, para que possamos degustar com calma essas belezinhas que enfeitam toda a casa aqui da #comofas. Bora ao acervo..

Esses dois postais são lembranças de Valparaíso no Chile. A cidade portuária é interessante e bonita demais, construída em um local cheio de morros e repleta de imensas escadarias. Se, com certeza, Valparaíso te dá uma canseira nas pernas, enche também seus olhos de beleza com sua vista do alto, casas coloridas e muros e mais muros grafitados, oferecendo a quem a visita um dos maiores museus a céu aberto do mundo.

127 Escalones hasta el cerro del corazón, cerro cordillhera do artista local Corocoirón.

Série: Murales de Valparaíso - Avenida Errázuriz. Fotografia de María Paz Maureira.

Os próximos dois postais são uma lembrança de Buenos Aires, Argentina, de uma visita que fiz ao encantador Museu de Arte Moderna – MALBA. Eu fico completamente deslumbrada com esses museus de arte moderna que misturam tudo de uma forma encantadora. Arquitetura, fotografia, novas técnicas e obras antigas que marcaram época com sua estranheza ou modernismo. E é nesse museu, nossa versão latino-americana de Tate Modern, que encontramos em sua exposição permanente a obra Abaporu. Sim! Aquele mesmo da Tarsila do Amaral, movimento antropofágico. Tudo bem que ele está lá em boas mãos lá no MALBA –  Museu de Arte latino-americana de Buenos Aires, mas que dá uma dózinha´e ciuminho de estar lá e não aqui, dá, não dá?!

Fotografia de Macarena Muñoz.

El Contagio de Lichtenstein do artista REP para a exposição REP e Repiso realizada entre agosto e setembro de 2004 no MALBA.

Já em Santiago no Chile tive a incrível oportunidade de ver uma exposição no Centro Cultural Palacio de la Moneda sobre Frida Kahlo e Diego Riviera. Estavam expostas também as belíssimas roupas da artista, em sua maioria feitas com exclusividade e à mão. Trouxe desse dia uma lembrancinha em forma de postal. Pior é que tenho este postal na sala e já escutei minha mãe assim “Luciana, que foto estranha sua é essa?”. Devo estar precisando fazer as sobrancelhas… Ou o bigode…

Frida Kahlo hospitalizada con calavera de azúcar. (1950)

Ainda em Santiago, uma lembrancinha do belíssimo Museo de la solidaridad Salvador Allende.

Desse - Uma colagem do austríaco Victor Vasarely.

Do Uruguai, trouxe esses dois aqui do Museo Torres Garcia.

Calle con casa y nube blanca, 1928. De Joaquín Torres García.

Naturaleza Muerta con flores y reloj de Joaquín Torres Garcia.

Olhem só o que eu trouxe de La Paz, Bolívia. Este postal era distribuído em frente aos orgãos públicos. Foi a maior decepção do mundo quando meu avô viu esse postal no meu quarto mas eu ainda acho uma bela lembrança.

Bolívia Seríes nº 025 Evo Morales por Phíl Ríce

Gostaram? Se sim, aguardem pois nos próximos posts têm mais postais da Zóropa, presentes que ganhei de amigos e a coleção de postais assinados em comemoração aos 4 meses da Lei Antifumo cidade de São Paulo!

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