Vão dizer que já estou me repetindo, falando de ETs outra vez, mas vá lá: Luciana e Grazi pediram novo texto e não pude falar de outra coisa. É que chegou aqui em casa, com atraso de quase um mês (aquele abraço pra Livraria Cultura, enrolando entregas desde 1947!), meu exemplar de O Eternauta, HQ com roteiro de Héctor Oesterheld e desenhos de Francisco Solano López. Clássico dos quadrinhos argentinos, reverenciado há 50 anos por lá, quase desconhecido por aqui. A editora Martins Fontes, sob o selo Martins, corrigiu este erro histórico lançando a primeira e mais conhecida leva dessas histórias de ficção científica.
O Eternauta começa quando um sujeito se materializa à frente de um quadrinista, alter ego de Oesterheld, e começa a contar sobre sua condição de viajante do tempo. Pronto: é a deixa elementar para toda esta trama de neve radioativa, gente morta nas ruas e caminhada non-stop pela sobrevivência. Juan Salvo, o narrador apelidado de Eternauta, relembra seu núcleo de amigos que tenta resistir à invasão de monstrengos meio insetos, meio robôs, meio qualquer coisa.
Tá, mas e daí? Daí que reza a lenda, contada pelo jornalista Paulo Ramos em seu livro Bienvenido – Um passeio pelos quadrinhos argentinos, que Solano propôs a criação de uma saga sci-fi ao roteirista, não sem antes avisar: “Não me escreva uma daquelas com pistolas de raios, me faça uma ficção científica realista”. Oesterheld aceitou a premissa e criou uma narrativa que é, antes de tudo, um tratado de afetividade em meio à devastação. Este sujeito que viaja pelo tempo não viaja à toa. Procura saber de sua mulher e filha, capturadas a mando de um líder-ET de 14 dedos. Para isso, tem que sobreviver sem condições de medir o quanto de solidariedade sobrou nos humanos ainda vivos.
O monstro das mãos enormes é inverossímil, claro, mas a busca do Eternauta é real o suficiente para tocar o leitor. Nela reside o segredo e o simbolismo da história. O mestre Oesterheld sabia, como todo autor de quadrinhos de aventura sabe, que é neste resto de racionalidade em meio à fantasia que nascem as grandes histórias do gênero. O preto e branco da arte de Solano, de expressões faciais de terror sob os uniformes, cuida de sublinhar este realismo.
Mesmo a ambientação da história, em uma Buenos Aires deserta, caminha nesta direção. Para o fanático por futebol que sou, por exemplo, é impagável a sequência em que um grupo militarizado improvisa um bunker humano em pleno estádio do River Plate. A partir daí, quando descobre-se que o inimigo é outro que não os próprios homens, a trama se desenrola como clara exaltação ao herói coletivo. Tudo sem apelar para o cabecismo bobo, nem a lentidão de roteiros pretensiosos. Talvez pela própria exigência do formato, originalmente publicado em capítulos semanais, a ação em O Eternauta não tem pausa para respirar em nenhum momento dessas 360 páginas.
Uma sequência foi preparada pela dupla, já nos anos 70, mas o teor político da continuação custou caro a Héctor Oesterheld. Simpatizante da Juventude Peronista, de oposição, foi morto pelo regime militar argentino, que também levou suas quatro filhas. O roteiro criado por ele, porém, transpôs o tempo e até a linguagem dos quadrinhos. Pode-se dizer, sem medo do exagero, que Eternauta alcançou o imaginário daquele país, não muito longe da Mafalda de Quino, dos livros de Borges, Cortázar ou do que quer que seja.













