Quando passou pelo Rio de Janeiro, na primeira de seis apresentações que fará no Brasil, Bob Dylan foi “acusado” de ter feito um show “morno e sem hits”. Na noite da última terça-feira, Bob passou também por Brasília e confirmou o que já era possível intuir a respeito: carência é uma merda mesmo. Não é uma afirmação das mais sutis, confesso até que bem pouco inteligente, mas não me vem outra no momento. Essa mania que se tem de criticar alguém que, aqui nestas terras ou em qualquer lugar do planeta, faz o seu show, como entende que dever ser feito, e pronto. Nos intervalos entre as quase 20 músicas do set list brasiliense, Bob Dylan não conversou uma vez sequer com a plateia do ginásio Nilson Nelson e não esboçou nenhum gesto especial de simpatia. Não precisava.
O velho Dylan vem revestindo suas músicas, novas e antigas, com algo meio rock, levemente country e essencialmente blues. Dentro deste universo, abdicou da tarefa de cantar seus versos. Prefere adotar um jeito quase falado de soltar a pouca voz que lhe sobra. De terno e chapéu, domina o palco mais como um mestre de cerimônias de si mesmo do que propriamente como um cantor. Não é segredo para ninguém que ele não tem mais alcance algum de voz, pelo qual vem sendo constantemente criticado, mas veja só: esse alcance, meu amigo, jamais existiu. O que sempre houve, e parece eterno na mitologia Dylan, é a propriedade com que usou sua voz falha, porém certeira. Com ela, desfila seus hits de forma desacelerada e, como faz também desde sempre, guarda pouca fidelidade com aquilo que foi registrado nos discos.
Chega a ser engraçado a ânsia de participação quando, por exemplo, chega o refrão de “Like a Rolling Stone” e o público quer cantar como está lá, na gravação presente em Highway 61 Revisited. Só que o show não é, e nem poderia ser, aquele de 47 anos atrás. O público enche os pulmões pressentindo o refrão, mas ele só vem depois, em tempo diferente e sem a explosão com que ficou eternizado. Paciência. Mesmo hoje, após décadas de carreira, às vezes é difícil para o público, ou mesmo para a crítica, aceitar este paradoxo do sujeito. Em toda canção, Dylan apresenta uma novidade – passa longe das versões consagradas no imaginário popular. Em toda canção, não há novidade alguma – é o mesmo velho Dylan, passando uma rasteira na própria plateia apenas porque quis assim.
E nem há, para ser justo, tantas rasteiras assim. No Rio, Dylan começou com “Leopard-Skin Pill-Box Hat” e “It Ain’t Me, Babe”. Em Brasília, a mesma “Leopard-Skin Pill-Box Hat” e “Don’t Think Twice, It’s All Right”, seguidas por canções como “All Along the Watchtower”, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”, “Highway 61 Revisited” e “Ballad of a Thin Man”. Um conciso apanhado dos primeiros discos, portanto, para fã nenhum resmungar na saída. Tanto que faltou até algum espaço para as canções dos três últimos discos. Destas, os pontos altos foram mesmo as que figuram em Modern Times, de 2006. De lá, Dylan tirou as confrontadoras “Honest with Me” e “Thunder On The Mountain”, além da adorável e pessimista “Spirit on the Water”. Do disco mais recente, apenas “Beyond Here Lies Nothin” deu as caras. No bis – pois é, teve até bis! -, sobrou ainda “Rainy Day Women #12 & 35″, essa sim com a galhofa semelhante àquela original. E foi só. De mais não precisava. “Mais”, aqui, seria preencher carência. E carência, vou repetir, é uma merda.

