Bob Dylan em Brasília: carência e hits

abr 18

Por Jairo Macedo Júnior

Quando passou pelo Rio de Janeiro, na primeira de seis apresentações que fará no Brasil, Bob Dylan foi “acusado” de ter feito um show “morno e sem hits”. Na noite da última terça-feira, Bob passou também por Brasília e confirmou o que já era possível intuir a respeito: carência é uma merda mesmo. Não é uma afirmação das mais sutis, confesso até que bem pouco inteligente, mas não me vem outra no momento. Essa mania que se tem de criticar alguém que, aqui nestas terras ou em qualquer lugar do planeta, faz o seu show, como entende que dever ser feito, e pronto. Nos intervalos entre as quase 20 músicas do set list brasiliense, Bob Dylan não conversou uma vez sequer com a plateia do ginásio Nilson Nelson e não esboçou nenhum gesto especial de simpatia. Não precisava.

O velho Dylan vem revestindo suas músicas, novas e antigas, com algo meio rock, levemente country e essencialmente blues. Dentro deste universo, abdicou da tarefa de cantar seus versos. Prefere adotar um jeito quase falado de soltar a pouca voz que lhe sobra. De terno e chapéu, domina o palco mais como um mestre de cerimônias de si mesmo do que propriamente como um cantor. Não é segredo para ninguém que ele não tem mais alcance algum de voz, pelo qual vem sendo constantemente criticado, mas veja só: esse alcance, meu amigo, jamais existiu. O que sempre houve, e parece eterno na mitologia Dylan, é a propriedade com que usou sua voz falha, porém certeira. Com ela, desfila seus hits de forma desacelerada e, como faz também desde sempre, guarda pouca fidelidade com aquilo que foi registrado nos discos.

Chega a ser engraçado a ânsia de participação quando, por exemplo, chega o refrão de “Like a Rolling Stone” e o público quer cantar como está lá, na gravação presente em Highway 61 Revisited. Só que o show não é, e nem poderia ser, aquele de 47 anos atrás. O público enche os pulmões pressentindo o refrão, mas ele só vem depois, em tempo diferente e sem a explosão com que ficou eternizado. Paciência. Mesmo hoje, após décadas de carreira, às vezes é difícil para o público, ou mesmo para a crítica, aceitar este paradoxo do sujeito. Em toda canção, Dylan apresenta uma novidade – passa longe das versões consagradas no imaginário popular. Em toda canção, não há novidade alguma – é o mesmo velho Dylan, passando uma rasteira na própria plateia apenas porque quis assim.

E nem há, para ser justo, tantas rasteiras assim. No Rio, Dylan começou com “Leopard-Skin Pill-Box Hat” e “It Ain’t Me, Babe”. Em Brasília, a mesma “Leopard-Skin Pill-Box Hat” e “Don’t Think Twice, It’s All Right”, seguidas por canções como “All Along the Watchtower”, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”, “Highway 61 Revisited” e “Ballad of a Thin Man”. Um conciso apanhado dos primeiros discos, portanto, para fã nenhum resmungar na saída. Tanto que faltou até algum espaço para as canções dos três últimos discos. Destas, os pontos altos foram mesmo as que figuram em Modern Times, de 2006. De lá, Dylan tirou as confrontadoras “Honest with Me” e “Thunder On The Mountain”, além da adorável e pessimista “Spirit on the Water”. Do disco mais recente, apenas “Beyond Here Lies Nothin” deu as caras. No bis – pois é, teve até bis! -, sobrou ainda “Rainy Day Women #12 & 35″, essa sim com a galhofa semelhante àquela original. E foi só. De mais não precisava. “Mais”, aqui, seria preencher carência. E carência, vou repetir, é uma merda.

 

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Rock no Goiás! Documentário Hang the Superstars

mar 14

Então: existiu uma banda da qual você talvez nunca tenha ouvido falar, mas que tocou a desgraça completa numa cidade perdida. Em Goiânia, estiveram nos lugares e nos sons que pouca gente teve a manha de estar. O Hang the Superstars circulou por aí durante 10 anos, mas acabou. Não vai voltar. Infelizmente, não é provável que o vocalista Maurício Mota volte a empunhar uma guitarra tão cedo, mas é plenamente possível que a história dele e mais alguns malucos seja contada em documentário.

Para isso, tá rolando no Catarse, aquela ferramenta de financiamento colaborativo, um projeto que busca recursos para um filme a respeito do HTS. Mais de 80 pessoas colaboraram, uma festa foi realizada e outra ainda rola nesta semana. Na quinta, Bang Bang Babies e Dirty Harry tocam no Metrópolis, na capital goiana, e parte da renda da bilheteria será revertida para o projeto.

Para falar da importância da bagaça, a Comofas convidou o amigo Pedro Rabelo, vocalista dos Bang Bang Babies, para contar do legado, da sem-vergonhice e do caminho torto que o HTS insistiu em traçar.

Hang the Superstars - Menos tecnologia, mais unha
Por Pedro Henrique Rabelo

Quem acompanhou a música alternativa goianiense do final dos anos 90 até meados de 2006, com certeza já ouviu falar de uma banda formada por três sujeitos de gravatinha e duas minas fazendo backing vocals. É bem provavel, aliás, que grande parte dos que frequentaram o underground da época se lembre dessa banda com um puta entusiasmo nostálgico. É o meu caso.

O Hang The superstars foi sem dúvida uma das bandas mais empolgantes que surgiram em território goiano. Fizeram inúmeros shows eletrizantes e, entre cds, fitinhas k7 e vinil 7”, sempre lançaram materiais super classudos. O HTS misturava garage, punk, new wave e surf de forma crua e safada. Era tosco, dançante, primitivo, divertido, despretensioso e muito, muito honesto.

E a honestidade, às vezes, fala mais alto. A real é que durante toda sua trajetória, o HTS se manteve fiel a alguns princípios, fazendo música simples e colocando a diversão sempre em primeiro plano. É fácil enxergar a não rendição a fórmulas ou modismos, sem medo de fazer um tipo de música que, para muitos, poderia soar como algo tosquinho, meio torto, esquisito. Pode até ser, mas a verdade é que a energia, o swing e a pulsação estavam sempre presentes.

Em algumas das gravações, o Hang the superstars utilizou equipamentos que eram considerados obsoletos para muita gente e resgataram a sonoridade típica das bandas de garagem. “Menos tecnologia e mais unha”, dizia Mauricio Mota. Nos palcos, a banda se dava bem tanto em festivais de maior estrutura quanto em eventos humildes e com aparelhagem ruim.

É importante observar que algumas bandas do novo rock goiano, e mais ainda de outros estados, nunca chegaram a ver um show do Hang. O que é uma merda, já que tudo hoje parece imposição sonora e estética, pouca sinceridade, nenhuma espontaneidade. Todos profissionais demais. Tocar com o equipamento top, ser o top, e blábláblá. Por esses e outros motivos, a banda merece o registro em documentário. É necessário resgatar esses momentos de insanidade e liberdade vividos intensamente durante a trajetória da banda.  A lição de desprendimento muito bem ensinada pelo Hang The Superstars.

Não conhecia mas se interessou? Que tal ajudar o rock de qualidade goiano a ser devidamente documentado e ainda levar um DVD desse povo louco debaixo do braço? Contribui aí pro projeto! Mas não deixe para depois pois restam menos de 5 dias!

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